PTRR – Plano de Recuperação e Resiliência Português
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Nos últimos anos, impulsionada por fenómenos pandémicos globais e pelo crescimento da incidência de doenças crónicas em populações cada vez mais envelhecidas, a inovação tecnológica na área da saúde ganhou um novo fôlego, tornando-se uma prioridade transversal a governos, empresas, e comunidades de investigação.
Combinando avanços técnico-científicos e ferramentas digitais, o setor procura, atualmente, responder aos desafios da longevidade, acessibilidade e sustentabilidade económica, usando a I&D como motor estratégico de crescimento.
Esta transformação tem sido particularmente visível em países como o Reino Unido, os Estados Unidos e a Espanha, que lideram no apoio à digitalização da saúde, com modelos fiscais atrativos e ecossistemas de aceleração industrial. Os incentivos vão desde créditos fiscais para I&D, deduções fiscais, bonificações na contratação de talento qualificado e financiamento público-privado, específicos de apoio à digitalização da saúde e biomedicina.
Como resultado, emergem tendências globais como a aplicação de IA para diagnóstico precoce, plataformas de eHealth, realidade aumentada em treino clínico, neurotecnologia e novos modelos
de gestão hospitalar baseados em dados.
Em Portugal, o setor da saúde representa cerca de 10% do PIB, e apesar do país contar com centros de investigação de renome internacional, com empresas prestigiadas no setor, e uma nova geração de startups HealthTech, persistem desafios significativos na transformação de conhecimento científico em soluções de mercado, de forma competitiva e escalável.
Um dos maiores exemplos desta lacuna é a baixa digitalização do sistema de saúde, agravada por escassez de profissionais, desigualdade territorial e envelhecimento acelerado da população. A automação de processos, o diagnóstico remoto e a monitorização digital são, por isso, soluções urgentes no panorama nacional.
Portugal dispõe já de um conjunto de incentivosfiscais e financeiros relevantes para investimentos em I&D na saúde. O SIFIDE permite recuperar até 82,5% dos custos com atividades de I&D através de deduções fiscais. O PRR, o Portugal 2030 e osfundos europeus como o Horizon Europe ou o STEP criam oportunidades reais para as empresas tecnológicas nacionais.
Apesar destes apoios, a execução prática dos fundos continua aquém do desejado, com taxas de execução reduzidas, especialmente no PRR. Falta cultura de transferência de tecnologia e o investimento privado em saúde digital continua limitado. Adicionalmente, muitas PME e startups não dispõem de equipas especializadas para interpretar e aceder aos instrumentos fiscais e financeiros existentes, nem de recursos técnicos para preparar e gerir candidaturas complexas, capazes de transacionar as suas ideias em produtos competitivos no mercado.
Existem, no entanto, formas de acelerar esta transição. A criação de um fundo nacional dedicado exclusivamente à inovação em saúde – com potencial envolvimento público-privado – permitiria aumentar a disponibilidade de capital para a fase de industrialização. Já a reformulação do SIFIDE, introduzindo um modelo mais ágil e célere para startups científicas em fase inicial, reduziria burocracias e aumentaria a taxa de aproveitamento deste benefício por parte de novos projetos.
É crucial facilitar a constituição de consórcios entre empresas, universidades, centros clínicos e institutos de investigação, tornando Portugal mais competitivo na captação de financiamento. Simultaneamente, projetos com impacto social positivo — como os que melhoram o acesso à saúde em zonas rurais ou em populações vulneráveis — devem ser reconhecidos com benefícios adicionais. O Reino Unido, por exemplo, financia via o SBRI Healthcare tecnologias que promovem a equidade no sistema público de saúde. Em Espanha, o PERTE Salud de Vanguardia apresenta convocatórias focadas na digitalização do sistema e na equidade territorial.
Com base nestas medidas, Portugal poderá transformar a inovação científica na saúde em valor económico nacional, aumentando o investimento em I&D, estimulando a produção de soluções tecnológicas exportáveis e gerando emprego altamente qualificado. Ao mesmo tempo, criará impacto direto na vida das pessoas, promovendo um sistema de saúde mais eficiente, personalizado, inclusivo e tecnologicamente avançado.
Em suma, no país existe talento, conhecimento científico e um tecido empresarial resiliente. Contudo, para competir com os líderes internacionais, é fundamental acelerar a execução dos fundos, simplificar o acesso aos apoios e criar ecossistemas que liguem mais diretamente a ciência ao mercado. Apenas com essa articulação será possível garantir que as soluções conceptualizadas em universidades ou em laboratórios nacionais possam chegar ao mercado em tempo útil, criando um impacto considerável na população.
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